domingo, 17 de janeiro de 2010

Eleições presidenciais chegando: câmbio em perigo constante.

(Marcelo Barbosa)

Esta semana o dólar fechou em R$ 1,77 no dia 15, depois de cinco dias de alta. Isto se explica devido ao nervosismo do mercado e segundo especialistas do mercado devido a quatro fatores: os leilões diários do BC e a expectativa pelo Fundo Soberano; as projeções de um superavit comercial menor neste ano; a compra de dólar no mercado futuro por estrangeiros; e finalmente, "rumores sobre retirada de recursos do País por fundos estrangeiros, que habitualmente fazem realocação dos portfólios nesta época do ano".

Enquanto isso nossa preocupação com o andar da carruagem econômica vai ficando muito mais oscilante, ainda mais quando se aproxima o período das eleições. As declarações dos candidatos à sucessão presidencial têm um poder bombástico sobre o quotidiano da política econômica brasileira. Afinal a atual política econômica é fundamentada basicamente em três pontos: nas metas de inflação, no câmbio flutuante e na autonomia do Banco Central (política de juros).

As metas de inflação são, parodiando o Magri, “imexíveis”. Quanto ao câmbio, um dólar baixo gera fenômenos interessantes, por um lado reduz a inflação e aumenta a capacidade de compra da população. Por outro lado, diminui a capacidade de competição dos produtos exportados e aumenta o nível das importações. Também é fato que passamos por diversas experiências ao longo dos anos do Brasil democrático que mexeram nesta política e que não foram muito felizes. Aprendemos que em time que está ganhando não se deve mexer, portanto, não devemos esperar nada novo neste campo pelos futuros candidatos.

No campo da autonomia do Banco Central, que responde pelas movimentações da taxa de juros, é fundamental que o BC possa responder rapidamente à realidade econômica, que vira e volta, vai do céu ao inferno num piscar de olhos. Porém, apesar do discurso quase uníssono do governo e da oposição a favor da independência do BC, não irá passar de bravatas de discurso esta proposta. Entra e sai eleição e nem oposição e nem governo propõem a real independência do BC de forma constitucional. Falta evidente coragem política.

Bom, então como ficamos? Os políticos ainda terão de responder aos questionamentos e insatisfações a respeito da perda de competitividade externa. Então como fazê-lo sem mudar nada?

Segundo as discussões levantadas o foco será em torno da derrubada de juros através do corte dos gastos públicos, reduzindo a demanda agregada para neutralizar possíveis pressões inflacionárias que coloquem as metas de inflação em risco. Porém, gastos públicos são fundamentais para quem pretende crescer à uma taxa real equilibrada nos próximos anos, além disso, tais gastos permitiram que uma parcela considerável da população fosse agregado ao mercado consumidor e que acabou segurando o consumo interno no período de crise.

Os mecanismos econômicos usados não são automáticos, mexer em algo neste momento produzirá reflexos depois. Então temos um paradoxo para as próximas eleições entre manter a atual política econômica, garantir competitividade nas exportações, e entre cortar os gastos públicos e ao mesmo tempo garantir os investimentos em infra-estrutura e os gastos em políticas sociais.

Então não devemos nos impressionar com os discursos eleitorais, a tendência é que “tudo fique como antes no quartel de Abrantes”.

Globalizar a Verdade dura e feia, oculta e omitida.

(Marcelo Barbosa)

Vamos falar um pouco da Globalização, mas para isso precisamos partir de um patamar comum para podermos dialogar dentro de um mesmo entendimento. Vamos pegar uma definição um tanto genérica do termo e tirada do Aurélio: “Econ. Processo típico da segunda métade do séc. XX que conduz a crescente integração das economias e das sociedades dos vários países, esp. no que toca à produção de mercadorias e serviços, aos mercados financeiros, e à difusão de informações.”.

No caso da integração econômica, é fato que este é um processo iniciado muito antes do século passado, afinal a busca de novos mercados e produtos fomentou a expansão ultramarina e na atual fase de crise o capitalismo buscou integrar novos mercados consumidores e universalizou o consumismo. O que realmente torna este processo de globalização inédito são basicamente dois conceitos centrais que se complementam, a universalização da democracia moderna e a informação.

O conceito de democracia é um sistema que visa legitimar ações governamentais (com principal relevância no poder executivo), atuando de forma soberana e fazendo valer o interesse público. Já as modernas tecnologias de comunicação integram o mundo na velocidade de um clique. Permitem que as informações sejam partilhadas rapidamente com qualquer um que tenha interesse independente da barreira física da distância. Porém, existe um hiato entre a prática governamental do exercício do poder e as informações que são (ou pelo menos deveriam ser) partilhadas com o público. Existe uma assimetria que corrompe o atual sistema democrático. Sendo que esta assimetria ocorre quando a relação que, afirmada entre Governo e Público, não pode ser afirmada entre Público e Governo sem haver uma transformação. Ou seja, nós o Público, o Povo, temos de acreditar nas informações que são postas pelo governo sem que muitas vezes possamos verificar a veracidade do que é dito ou sem que tenhamos tempo para fazê-lo, sob pena de paralisia da ação governamental.

Podemos exemplificar este quadro pinçando alguns fatos ocorridos nos últimos anos e que afetaram o mundo todo. Temos a Guerra Americana contra o Iraque e a busca pelas armas de destruição em massa. Temos também a briga e confrontamento de dossiês à respeito do aumento da temperatura mundial. No primeiro caso, a assimetria de informação no contexto da globalização serviu para que se declarasse uma guerra, com interesses econômicos escusos, que também serviu para escoar a produção da máquina de guerra americana adiando um pouco o processo recessivo desta economia. Justificou-se uma ação.

No segundo exemplo, temos a assimetria utilizada de forma a justificar uma não-ação governamental que agisse no sentido de definir um protocolo padrão de preservação ambiental que balizasse a política de governos mundo afora.

Cabe notar que a assimetria não é um conceito novo, ao contrário, é amplamente discutido no escopo da ciência da Administração Moderna, no campo da Moderna Teoria da Intermediação Financeira, onde é sabido que não se pode estabelecer uma relação verdadeiramente equilibrada quando uma das partes detém mais informações que a outra. Aquela mais informada poderá, se esse for o seu objetivo, obter vantagens muito maiores do que aquelas estabelecidas em uma relação verdadeiramente equilibrada.

No caso do sistema democrático temos um problema muito maior. O governo é exercido através de cargos no poder executivo basicamente, são pessoas ocupando cargos, com idéias próprias que em geral são infelizmente muito sensíveis aos interesses de grupos específicos e que detêm poder e informação suficientes para influenciar diretamente estes governantes. O povo, ao contrário é muito disperso, demasiadamente grande e sem uma consciência plena daquilo que está em jogo na ação governamental. O resultado é que o processo democrático que deveria refletir o interesse coletivo acaba sendo mascarado e desvirtuado. A verdade dura e feia acaba sendo ocultada e omitida.

No contexto do processo de globalização temos na verdade os seus dois conceitos centrais democracia e informação, à serviço de integrar e globalizar não a humanidade ou seus valores maiores, mas sim o consumismo e assegurar a riqueza de alguns grupos econômicos verdadeiramente. Isto é, infelizmente pra nós.