quarta-feira, 30 de outubro de 2013

Abu Dhabi como centro financeiro internacional

(Priscila Andrade Mesquita)

Abu Dhabi é um dos sete emirados que formam os Emirados Árabes Unidos (EAU), é a casa do governo federal e capital do país. Desde a descoberta de petróleo nos Emirados em 1958 – e um ano mais tarde reservas terrestres –, o país tem passado por uma profunda transformação, de uma região de principados empobrecidos para um país tecnologicamente moderno com alto padrão de vida, conforme dados da Central de Inteligência dos EUA, e atualmente experimenta uma economia em rápido crescimento, com uma alta do PIB e da renda per capita. Não é apenas o mais rico emirado dos Emirados Árabes Unidos, mas também se qualifica como uma das cidades mais ricas do mundo.


A economia de Abu Dhabi é em grande parte baseada na receita gerada a partir de recursos naturais. Petróleo e gás natural desempenham um papel vital, embora alguns outros setores também estejam surgindo a fim de apoiar a economia da cidade devido à desvalorização global de combustíveis fósseis. Os Emirados Árabes têm cerca de 8% ou 98 bilhões de barris de reservas comprovadas de petróleo do mundo e abriga a quinta maior reserva de gás natural do mundo. Porém uma crescente diversificação da economia do país tem sido evidente nos últimos anos. 

Outros setores estão crescendo lentamente e em 2030 o Governo prevê que 64% da sua produção total do PIB virão de fontes não petrolíferas, contra cerca de 32% atualmente. Para alcançar esta meta, as autoridades têm receitas do petróleo de Abu Dhabi reinvestidas em grandes projetos.

A cidade, antes conhecida por sua cobertura de convenções e exposições, ganhou importância para entretenimento e compras. Diversas áreas e ilhas em Abu Dhabi foram desenvolvidas para promover o turismo, surgindo agora como um dos melhores destinos turísticos do país, devido à sua excelente infraestrutura e atrações, conforme divulga o Governo. Isso pode ser visto na atenção que tem sido dada ao seu aeroporto internacional. O mesmo, em 2009, experimentou um crescimento de 30% no número de passageiros – passando a receber não só voos originados ou encerrados em Abu Dhabi, mas também a caminho de outros destinos –. O gasto do governo expandiu a criação de empregos, e a expansão da infraestrutura aumentou o desenvolvimento econômico do setor privado.

O xeque Khalifa bin Zayed, chefe de estado dos Emiratos Árabes Unidos e emir de Abu Dhabi tem investido reservas de petróleo de forma sensata, a fim de aumentar os números do turismo; uma ambiciosa meta de 3 milhões em 2015 foi anunciada. Para impulsionar a indústria do turismo, hotéis de luxo e instalações de entretenimento foram construídos em todo Abu Dhabi. O mais recente capítulo é uma filial do Museu do Louvre, da França, na Ilha de Saadiyat.

Abu Dhabi também tem obtido destaque com o ADIA (Abu Dhabi Investment Authority), que está estimado em US$ 875 bilhões, sendo o maior fundo soberano – instrumento financeiro adotado por alguns países que utilizam parte de seus depósitos em moeda estrangeira dos bancos centrais e autoridades monetárias – de investimentos do mundo, em termos de valor do ativo total. Na sua fundação, em 1976, momento em que se restaurava a normalidade nos preços da commodity entre as duas crises do petróleo, o objetivo era investir excedentes do governo de em várias classes de ativos com baixo risco. E isso na época era novidade, pois os investimentos eram comumente feitos a curto prazo.

Embora a maioria dos planos de construção esteja em andamento, a crise de 2008 influenciou as decisões tomadas por investidores estrangeiros nos Emirados Árabes. Devido a isso, eles têm priorizado alguns dos principais projetos, pois na ocasião o dinheiro já não era mais tão fácil de emprestar. Apesar disso, Abu Dhabi ainda está em uma posição econômica forte, continuando a ser o maior contribuinte para o PIB total dos EAU e a fornecer subsídios financeiros para os menores emirados do país.

Recentemente, a agência Reuters divulgou uma possível fusão da Abu Dhabi Securities Exchange e a Dubai Financial Market, que seria uma das maiores reformas no setor financeiro do país nos últimos anos:

“Abu Dhabi e Dubai contrataram bancos para serem consultores sobre uma possível fusão de suas duas principais bolsas de valores, um acordo com apoio estatal que pode dar energia a mercados financeiros nos Emirados Árabes Unidos”

A negociação teria sido impedida em 2009-2010 por diferenças sobre valorizações, porém com um foco renovado sobre a cooperação entre os dois emirados em diversas áreas, a ideia de uma fusão das duas bolsas, mais uma vez ganhou tração e estaria completada antes do final do ano, apesar de que o processo levaria mais tempo. Ainda segundo a agência, seria mais fácil para os investidores para operar em todos os mercados e poderia estimular o comércio e atrair mais investimento estrangeiro.

Outra notícia recente é a autorização para o National Bank of Abu Dhabi (NBAD) operar no Brasil. “A proposta da instituição no Brasil é financiar projetos que envolvam importação e exportação de produtos brasileiros a partir da sua sede regional, em São Paulo”, com ênfase no corredor entre África, Oriente Médio e Ásia, mas que não precisariam passar necessariamente pelo Oriente Médio. A dúvida em relação à economia brasileira não se configura um problema para o NBAD:

“(...) para nós o Brasil tem uma importância econômica muito relevante. Não apenas porque é uma das maiores economias do mundo, mas porque o Brasil é um grande produtor e exportador de alimentos. Acreditamos que quando a situação econômica global estiver boa de novo, será um problema (com relação aos preços). (...) No longo prazo, é o lugar em que precisamos estar”

Afirmou Angela Martins, gerente regional do banco para a América Latina, fazendo um contraponto com a estrutura brasileira de portos, rodovias, transporte fluvial, etc., que são os maiores problemas para a exportação.

Referências




Novas bolhas imobiliárias no ambito mundial


(João Wacho Neto)

Preocupados com a crise americana de 2008, que se originou com uma bolha imobiliária, especialistas do mundo vem fazendo estudos no intuito de entender como se precaver para que bolhas não afetem seus países. Apesar deste esforço podemos perceber que algumas bolhas claramente estão se formando, algumas com maior intensidade, outras menor. O fato é que a preocupação é generalizada.

Podemos entender bolha imobiliária como um deslocamento de valor de algum ativo em relação a variação dos outros ativos do mercado ou uma replicação de vendas de um mesmo ativo, “criando” dinheiro no mercado e com isso alavancando o consumo sem ter uma base real e solida. Dessa forma se houver um momento em que todos queriam resgatar seu dinheiro, haverá grande quantidade de “calotes” e o mercado entrará em colapso, assim como ocorreu com o mercado americano em 2008.

No caso brasileiro, há algumas peculiaridades. O país está crescendo abaixo do esperado, com isso incentivos governamentais estão sendo adotados e muitos dos imóveis que acreditamos não estarem “valendo o preço” realmente não estão sendo comprados por Brasileiros. Imobiliárias como a Coelho da Fonseca em São Paulo e a Bamberg Brasil Brokers no Rio de Janeiro comemoram esta crescente demanda, de compradores estrangeiros, e acrescentam que os imóveis não são apenas para moradia, são também procurados como forma de investimento, já que estão tendo altas taxas de retorno.

A Grã-Bretanha vem vivendo sobre  temor de uma nova bolha imobiliária, após a drástica queda dos preços dos imóveis devido a crise de 2008. Os empréstimos imobiliários estão batendo recordes, números não vistos desde 2009. Junto ainda, a entrada de capital estrangeiro está fazendo com que os preços cheguem a uma alta percentual da casa de quase 2 dígitos por ano.  

No Brasil temos um cenário parecido, dados retirados do índice FipeZap deixam clara a situação que se encontra o mercado imobiliário brasileiro. De Janeiro de 2008 a Setembro de 2013, no Rio de janeiro o índice de variação ficou em 227,5% para o valor de venda dos imóveis, contra um IPCA de apenas 35,7% no mesmo período, em São Paulo os números também impressionam, são 184,7% de variação neste período. O IPCA visa calcular qual foi a variação real dos preços no comércio Brasileiro. A população-objetivo do IPCA abrange as famílias com rendimentos mensais compreendidos entre 1  e 40 salários-mínimos, qualquer que seja a fonte de rendimentos, e residentes nas áreas urbanas das regiões (isso equivale a aproximadamente 90% das famílias brasileiras).

No início do mês de outubro, o Copom (Comitê de Política Monetária) do Banco Central, decidiu por unanimidade elevar mais 0,5% a Taxa Selic, taxa básica de juros do País, chegando aos 9,5% ao ano. Com a elevação, o Brasil volta a ter o maior juro real (descontada a inflação) do mundo, de 3,5%, segundo cálculos do economista Jason Vieira.  No comunicado oficial do Banco Central, uma das frases foi: “ O Comitê avalia que essa decisão contribuirá para colocar a inflação em declínio e assegurar que essa tendência persista no próximo ano."

Segundo economistas, juros altos tendem a diminuir bolhas, seja no mercado imobiliário ou acionário. A lógica é a seguinte: se é possível investimentos de renda fixa, em que o risco é próximo de zero, com remuneração próxima das remunerações com risco, por que alguém iria se aventurar a especular com ações ou imóveis?

Estranhamente, o mercado imobiliário andou na contramão e não se importou muito com o aperto monetário. A Selic tende a continuar alta nos próximos meses, o que deve aumentar ainda mais a atratividade da renda fixa afirmou o professor da FGV, William Eid, em entrevista com à revista exame. Hoje um investimento de 1 milhão de reais aplicado na poupança, vai render um rendimento líquido e certo de 5.000 reais por mês, à taxa de 0,5% a.m., teto de rendimento da aplicação já que a taxa Selic encontra-se acima dos 9%. Nas metrópoles Brasileiras, esse valor é suficiente para comprar um imóvel que pode ser alugado entre 3.000 a 5.000 reais, pesquisa feita em sites de imobiliárias da grande São Paulo e região metropolitana do Rio de Janeiro em meados de outubro. Neste cenário a única explicação para fazer investimento em imóvel nessa época, que tem risco de ficar períodos sem inquilino, de inadimplência, entre outros, é a expectativa de que os valores de venda dos imóveis continuem aumentando. Tratando os imóveis como ativos financeiros e no momento em que acreditarem estar perto de um declínio constante, passem todos a colocá-los a venda em efeito cascata, o que pode ser prejudicial a saúde financeira do país. Afinal investimentos com alta volatilidade de preço estão sujeitos aos feitos dos fatores psicológicos dos investidores.

Na contramão desta teoria de que a bolha imobiliária brasileira está chegando próximo a níveis perigosos, alguns analistas como Ricardo Amorim, estudam bolhas levando em consideração não apenas os preços “descolados” da realidade, mas também nível de endividamento para a compra destes e quantidade de cimento per capita anual. Analisando outras crises imobiliárias por estes dados, conclui-se que o Brasil não está em risco, já que as bolhas “estouram” quando o total do crédito imobiliário supera 50% do PIB e o consumo anual de cimento supera os 400 Kg per capita anual. Em muitos casos estes números são ainda maiores. Temos hoje no Brasil por estimativa dele 349 Kg de consumo de cimento e o crédito imobiliário chega a apenas 5% do PIB. Bastante distante dos fatores de uma crise apesar dos preços decolando, ele acredita ainda não só na diminuição da inclinação da curva de preços dos imóveis mas também em um possível reajuste dos preços para baixo.

A China é um dos países com a situação mais crítica segundo analistas. O investidor seguidor da Escola Austríaca, Doug Casey argumenta que a China "está em uma inacreditável bolha imobiliária", algo que irá fazer com que "milhões de chineses — e os bancos que emprestaram dinheiro para eles — percam tudo." O governo investe fortemente na construção civil dizendo estar se preparando para um “boom” de população. O que vemos hoje são cidades e mais cidades inteiras que foram construídas desde esgoto até pontos comerciais e que estão sendo subutilizadas ou até mesmo “cidades fantasmas” como estão sendo chamadas as cidades que estão prontas e não tem sequer um morador.

Toda essa construção tem demanda, há altos índices de compra dessas casas na planta. Impulsionados por investidores que acreditam ser um ótimo investimento por acreditarem ser lucrativo e seguro e sustentado pelo crédito imobiliário. O M2 chinês teve crescimento de 58% enquanto os empréstimos bancários dobraram de 2008 para 2009. Somado a esses dados, o fato de o governo chinês impor investimentos de cima para baixo complica a situação, estão mantendo um crescimento forte que segundo alguns analistas pode estar sendo camuflado. Embora parte desse crescimento certamente advenha de um genuíno desenvolvimento econômico, uma fatia substancial é impulsionada pela expansão monetária, por "estímulos" governamentais e por uma maciça e insustentável bolha imobiliária.

Possibilidades de crises e bolhas estão hoje espalhadas por todo, em nenhum caso todos os analistas se inclinam a mesma decisão. O Brasil não fica de fora e não temos poder de mudar algo no cenário macroeconômico, mas podemos sim de certa forma estudar e acompanhar as noticias para nos prevenir.
 

A crise da Dívida Soberana na Europa


(Arlisia Kelly Ribeiro Santos)


Os formuladores de políticas ao redor do mundo usaram estímulos fiscais para atenuar as perturbações econômicas e sociais advindas da crise financeira de 2007.
Houve certo consenso de que o setor bancário necessitaria ser salvo para evitar uma crise sistêmica e restaurar a confiança da economia. Medidas fiscais de curto prazo foram tomadas para estimular a economia e referendadas por diversos economistas, incluindo organizações governamentais e governos.


A crise, porém, potencializou os problemas de economias já endividadas e com problemas de solvência, agravando ainda mais sua posição fiscal e dando início a um temor irrepreensível de contágio. Casos evidentes são os da Grécia, Irlanda, Portugal, Itália e Espanha que impuseram um impasse recente à Zona do Euro.

Os problemas relacionados às dívidas, logo após as crises bancárias, tiveram destaque especial no recente estudo de Reinhart e Rogoff (2010). Os autores chegaram ao resultado de que, em média, a dívida pública aumenta em cerca de 86% nos três anos seguintes à uma crise financeira. Isso não só por conta das operações de socorro aos bancos, mas também por conta do emprego da política fiscal a fim de manter o nível de emprego e renda em suas economias.

“Na verdade, não estamos vivendo uma nova crise mundial. A crise é a mesma que teve início em 2008, estamos só em uma nova fase”, afirma Antonio Zoratto Sanvicente, professor do Insper (Instituto de Ensino e Pesquisa).

Breve análise do histórico da crise de 2007

Mishkin (2010) divide a crise financeira de 2007-2009 em duas fases. A primeira é mais limitada e afeta um segmento relativamente pequeno do Sistema Financeiro dos Estados Unidos, que vai de agosto de 2007 a agosto de 2008. Nesta fase, o PIB dos EUA continuou a subir até o segundo trimestre de 2008, o que levava a crer que a recessão teria apenas um impacto moderado sobre a economia do país. Em meados de setembro de 2008, a crise entrou em uma fase muito mais violenta, iniciando-se com a quebra do banco de investimentos Lehman Brothers; no mesmo mês, a empresa de seguros AIG também faliu, dando-se então uma corrida para salvar o sistema financeiro através do Programa de Alívio de Ativos Problemáticos (Troubled Asset Relief Plan).

O autor mostra que uma crise financeira se transforma em uma crise global por conta de três motivos. Primeiro, a crise aumenta os spreads de crédito correspondente à diferença entre a taxa de juros dos títulos públicos e os títulos “Baa corporate”, debilitando a política monetária, pois as taxas de juros que deveriam ser cortadas para estimular a economia, através da demanda agregada, ficam impedidas de sofrer quedas, uma vez que os bancos elevam os spreads. Segundo, o declínio dos preços dos ativos durante uma crise financeira provoca uma queda no valor dos colaterais, o que torna mais difícil para as empresas não-financeiras tomar emprestado. Além disso, a deterioração dos balanços das empresas financeiras, que têm o conhecimento necessário para mitigar problemas de seleção e risco moral, provoca uma redução no volume de empréstimos ofertados. Terceiro, o aumento geral da incerteza que ocorre durante uma crise financeira também leva a um aumento da assimetria de informação dificultando ainda mais a capacidade dos mercados financeiros em alocar fundos para as famílias e empresas (Mishkin, 2010).

Uma das principais respostas à crise foram os estímulos fiscais dados por alguns países. A administração Obama, através do American Recovery and Reinvestment Act de 2009, injetou bilhões de dólares na economia. Além disso, o plano apresentado previa 288 bilhões de dólares em cortes de impostos e US$ 499 bilhões com gastos do governo (Mishkin, 2010). Em outros países também afetados pela grande recessão que se iniciava, passaram a adotar estímulos fiscais. Segundo Auerbach et all (2010), a prevalência de intervenções de políticas fiscais no período se deveu tanto a severidade da recessão quanto a um otimismo revelado no que diz respeito ao potencial da eficácia da política fiscal. No entanto, o autor afirma que a variedade de políticas adotadas também sugere incerteza sobre quais abordagens poderiam ser mais eficazes.

Em uma perspectiva pós-keynesiana, Arestis e Sawyer (2010) defendem que a política fiscal é um instrumento mais eficaz do que a política monetária e que os argumentos de que a primeira é impotente não são válidos. Para eles, recentemente houve uma mudança de atitude em relação à política fiscal, uma vez que, nas últimas décadas, a sabedoria convencional tem se pautado pelas seguintes proposições:

A política monetária é o principal instrumento para a gestão macroeconômica, geralmente orientada a controlar a inflação e a política fiscal tem um papel de apoio ou coadjuvante para amortecer oscilações na atividade econômica, o que se reflete no “novo consenso da macroeconomia”.

A noção de equivalência limita o uso da política fiscal, pois o déficit orçamentário é impotente para afetar o nível de atividade econômica uma vez que seus efeitos sobre a demanda agregada decorrentes de aumentos na despesa pública seriam anulados por reduções no presente na demanda privada, dado o aumento da dívida pública no futuro. 
 
Por fim, ganhou força o argumento da prodigalidade em que o uso da política fiscal acabaria por produzir déficit orçamentário que levaria a uma dívida pública insustentável; por isso, variantes de regras de equilíbrio orçamentário foram defendidas. Um exemplo claro disso é o Pacto de Estabilidade e Crescimento da União Européia no qual o déficit público máximo permitido seria de 3% sobre o PIB e uma dívida pública de 60% também como proporção do produto.

No entanto, depois dessas considerações, é ainda duvidoso que tenha ocorrido uma mudança de paradigma sobre a política fiscal, pois é esperado que esta atitude tenha sido apenas temporária, dada a ineficácia da política monetária nesta situação.

A indisciplina fiscal e o descontrole das contas públicas em países da zona do euro, em particular na Grécia, arrastaram o bloco para uma crise financeira sem precedentes. Após a revelação de que os gregos maquiavam seu nível de endividamento, títulos soberanos de diversos países da zona do euro foram rebaixados pelas agências de risco, e a moeda comum caiu ao nível mais baixo em quatro anos. Para tirar a Grécia do buraco, União Europeia e FMI impõe um duro e impopular plano de austeridade, a que condicionam o socorro financeiro.

Dívida pregressa e adquirida: elementos para uma nova crise

A figura 1 mostra os picos de endividamentos estudados por Reinhart e Rogoff (2010) e as soluções encontradas. Nos últimos anos, a dívida pública nas economias avançadas subiu para níveis que não foram registrados desde o fim da Segunda Guerra Mundial. Até 2010, a relação dívida/PIB para todas as economias avançadas já havia ultrapassado os picos alcançados durante a Primeira Guerra Mundial e, posteriormente, durante a Grande Depressão. Níveis de dívida privada, particularmente de instituições financeiras e famílias, estavam similarmente em territórios desconhecidos. Ao longo dos tempos e em todos os continentes, a guerra tem sido uma força causal recorrente por trás da rápida deterioração das finanças públicas e picos de endividamento público. Em tempos de paz, um dos principais fatores por trás dos surtos de dívida pública são as crises financeiras sistêmicas. Com a crescente tendência do governo se estender em operações de socorro, a ligação entre dívida financeira e pública tornou-se mais pronunciada nas últimas duas décadas ou mais (Reinhart e Sbrancia, 2011; Reinhart e Rogoff, 2010).


Atualmente, é nítida a preocupação de que a crise na economia mundial se intensifique pelo temor engendrado na Zona do Euro, tendo a Grécia como principal expoente. O país acumulou uma dívida de cerca de 300 bilhões de euros e um déficit fiscal em 2009 de 13%, bem acima do teto fixado pelo Tratado de Maastricht que estipula 3% do PIB, Eichengreen et al (2011) relatam que não faz parte da tradição européia manter baixas taxas de dívida pública, com exceção de apenas alguns países que foram capazes de superar suas dívidas como resultado de seus respectivos processos de catching-up. Os países da Zona do Euro, em média, foram capazes de gerir sua dívida pública como proporção do PIB estabilizada somente nos primeiros dez anos da moeda única. Na época pré-crise, 17 membros da Zona do Euro já possuíam uma dívida pública em relação ao PIB superior a 60% em 2006. Três países, Grécia, Itália e Bélgica, possuíam uma relação dívida/PIB de 90%. Estas dívidas não foram oriundas de guerras ou catástrofes naturais, mas uma maneira de oferecer cada vez mais serviços públicos e realizar transferências.


Conforme a taxonomia minskyana, pode-se afirmar que a Grécia, como alguns outros países europeus, estão em situação Ponzi – em que os recursos provenientes de seus ativos não são suficientes para cumprir suas obrigações financeiras e, em razão disso, requer-se um endividamento crescente. Essa situação se agrava em períodos de crise em que os empréstimos interbancários são limitados e o financiamento, de modo geral, se esgota.

As perspectivas futuras da economia mundial parecem sombrias se acompanharmos os recentes desdobramentos da atual Crise Européia. Aumentos nos déficits de países já endividados e a incerteza relativa à recuperação econômica têm provocado novas rodadas de crise econômica e política.

Concluímos, a partir do estudo e dados observados, que todo o circuito dívida bancária - política fiscal - dívida soberana é algo que só pode ser evitado antes. Autores renomados têm dúvidas sobre o futuro da economia e modelos convencionais, com os quais nos acostumamos a lidar em períodos de aparente estabilidade econômica, não dão conta de prever o futuro da economia. A adoção, vista por muitos como equivocada, de políticas fiscais desordenadas e que só agravaram problemas de dívida soberana tornam as perspectivas futuras não animadoras, uma vez que poderemos vivenciar um período de baixo crescimento econômico mundial.

Referências
 
BANCO CENTRAL EUROPEU. Monthly Bulletin. Frankfurt: Banco Central Europeu, agosto de 2005. Disponível em: http://www.ecb.int/pub/pdf/mobu/mb200508en.pdf 
Acesso em: 23/10/2011.

BANCO CENTRAL EUROPEU. Reinforcing Economic Governance in the Euro Area. Frankuft: Banco Central Europeu, junho de 2010. Disponível em:http://www.ecb.int/pub/pdf/other/reinforcingeconomicgovernanceintheeuroareaen.pdf  
Acesso em: 23/10/2011.

PFETSCH, Frank R. A União Européia: história, instituições, processos. Brasília: Editora Universidade de Brasília, 2002.

SCHUKNECHT, Ludger et al. The Stability and Growth Pact: Crisis and Reform. Frankfurt: Banco Central Europeu, 2011 (Occasional Papers Series No. 129). Disponível em: http://www.ecb.int/pub/pdf/scpops/ecbocp129.pdf  
Acesso em: 23/10/2011.

VERDUN, Amy. Economic and Monetary Union. . In: CINI, Michelle (org.). European Union Politics. Oxford: Oxford University Press, 2007.

BRAINARD, William C. (1967), “Uncertainty and the effectiveness of policy”,

ALESINA, A. F.; ARDAGNA, S. (2009), “Large changes in fiscal policy: taxes versus spending”, NBER Working Paper Series, n. 15438.

EICHENGREEN, B. (2010), “Macroeconomic and financial policies before
and after the crisis”, In: East-West Center/KDI Conference on the Global Economic Crisis, Honolulu.
 

 

A publicação do novo relatório Mckinsey: "“Global Capital Markets".


(Aline Hiramoto)


O presente texto busca situar o McKinsey Global Institute (MGI) no debate sobre os mercados financeiros internacionais e apresentar os principais aspectos do relatório “Global capital markets: Entering a new era”, elaborado pelo MGI em setembro de 2009.


O McKinsey Global Institute (MGI) integra a McKinsey & Company, fundada em 1926 por James McKinsey, uma empresa global de consultoria de gestão e um conselheiro de confiança para as principais empresas do mundo, governos e instituições. 

O MGI, criado em 1990, tem a missão de ajudar os líderes nos setores comercial, público e social, desenvolver uma compreensão mais profunda da evolução da economia mundial e fornecer uma base de fatos que contribui para tomada de decisão na gestão crítica e questões políticas, através de sua pesquisa que combina Economia e Gestão e abrange mais de quinze países e vinte e oito setores da indústria.
 
O relatório “Global capital markets: Entering a new era” aborda a evolução dos mercados financeiros do mundo sendo em grande parte baseado nos bancos de dados que documentam os ativos financeiros, fluxos de entrada e saída de capitais e investimentos cross-border de mais de cem países ao redor do mundo desde 1990. Analisam-se os efeitos e implicações da crise financeira de 2008 e da recessão econômica através dos ativos financeiros globais e fluxos de capital. Abaixo serão exibidos os principais aspectos tratados no relatório “Global capital markets: Entering a new era”.

Os recursos financeiros globais diminuiu US$ 16 trilhões em 2008, o maior retrocesso já registrado

     O relatório inicia com a informação de que para a maioria das primeiras oito décadas do século 20, os ativos financeiros cresceram mais ou menos na mesma velocidade que o PIB. As exceções foram tempos de guerra, quando a dívida pública aumentou muito mais rapidamente. Mas depois de 1980, o crescimento do ativo financeiro correu à frente. Nos Estados Unidos, por exemplo, o valor total dos ativos financeiros como um percentual do PIB cresceu mais do que o dobro desde 1980. Em 2007, o valor total dos ativos financeiros globais atingiu um pico de US$ 194 trilhões, o equivalente a 343% do PIB.

Contudo, a crise financeira interrompeu este processo. O valor dos ativos financeiros do mundo caiu para US$ 178 trilhões até o final de 2008. Essa queda de 8% (equivalente a US$ 16 trilhões) foi o maior desde a coleta de dados do MGI que começou em 1990 e, em alguns países, a queda foi muito pior. O estrago foi generalizado, com ativos financeiros em declínio em quase todos os países. Apenas poucas economias, onde o Reino Unido é o mais expressivo, teve um aumento proporcional em 2008. O ganho do Reino Unido, no entanto, foi-se um subproduto da crise: um programa de governo do Reino Unido para recapitalizar bancos em dificuldades provocou um aumento na emissão de private debts.

Ações do mundo perderam quase metade de seu valor em 2008 (redução de US$ 28 trilhões).  Com os mercados de ações em declínio foi constituído o acidente mais grave desde a Grande Depressão. O valor total dos ativos financeiros do mundo caiu US$ 16 trilhões em 2008 para US$ 178 trilhões, o maior revés da história. Até setembro de 2009, os mercados de ações se recuperaram de suas baixas recentes, mas permaneceram bem abaixo dos picos.
 
A globalização financeira revertida: queda dos fluxos de capital em 82%

Uma das consequências mais marcantes da crise financeira foi uma queda acentuada nos fluxos de capital cross-border, que incluem o investimento estrangeiro direto (IED), as compras e vendas de ações estrangeiras e títulos de dívida e empréstimos e depósitos cross-border. Esses fluxos de capital caíram 82% em 2008, impulsionada por uma diminuição dos empréstimos bancários. Em relação ao PIB, o nível dos fluxos de capitais cross-border de 2008 foi o menor desde 1991. Isto criou uma turbulência no sistema bancário global, causando graves crises de liquidez e prejudicando o aspecto dos empréstimos estrangeiros. Cerca de 40% do declínio foi devido à secagem de empréstimos interbancários após o colapso do Lehman Brothers em setembro de 2008.

Da mesma forma, as compras globais de ações estrangeiras e títulos de dívida caíram. As compras de títulos da dívida externa diminuíram drasticamente em quase toda parte. A exceção foi os Estados Unidos, onde as entradas da dívida pública dispararam, já que os investidores buscaram segurança em títulos do Tesouro dos EUA.

As modificações nos fluxos internacionais de capitais também causaram um aumento na volatilidade da taxa de câmbio de curto prazo. Por exemplo, em apenas uma semana em outubro de 2008, o valor do won coreano desvalorizou em mais de 20% em relação ao iene, aumentando a competitividade dos fabricantes coreanos em comparação com os seus homólogos japoneses.

Nos últimos dez anos, a teia de investimentos cross-border estava crescendo com a globalização financeira. No entanto, estas ligações ligeiramente enfraqueceram em 2008, já que o valor dos investimentos cross-border diminuiu na maior parte do mundo. Os investimentos cross-border entre Estados Unidos e Japão, e entre os Estados Unidos e o Reino Unido, caíram de forma particularmente acentuada.

Desequilíbrios financeiros globais têm diminuído, mas isso pode ser uma reversão na tendência temporária

O McKinsey Global Institute considera que alguns desequilíbrios globais podem estar retrocedendo. O déficit em conta corrente dos EUA diminuiu, assim como os superávits na China, Alemanha e Japão. No entanto, isto pode ser um efeito temporário de crise, em vez de uma mudança estrutural no longo prazo.

Bolhas de crédito cresceu nos EUA e Europa antes da crise

Embora a crise tenha começado nos Estados Unidos, bolhas de crédito cresceram tanto nos Estados Unidos e na Europa antes da crise, seguido de expansões de empréstimo de vários anos em muitos outros países também. O total global de todos os empréstimos, as formas de crédito e de títulos de dívida aumentaram 70% entre 2000 e 2008, para US$ 131 trilhões. O total de crédito dos EUA em circulação subiu de 221% do PIB em 2000 para 291% em 2008, atingindo US$ 42 trilhões. 

Mercados financeiros desenvolvidos podem estar em um ponto de inflexão com o crescimento mais lento à frente

Mercados financeiros desenvolvidos podem estar direcionados a um crescimento mais lento nos próximos anos. Enquanto isso, os analistas externos fazem previsão de crescimento do PIB nas economias desenvolvidas a ser mais modesto nas próximas décadas do que nos últimos anos, conforme o envelhecimento da população e a dívida pública crescem. Essas projeções dão pouco apoio para a esperança de que os ganhos e as avaliações das empresas vão subir novamente para níveis significativamente mais elevados e de forma sustentável em mercados desenvolvidos.

Mercados financeiros emergentes poderá se recuperar com mais rapidez

A crise de 2008 teve origem em mercados desenvolvidos e os efeitos se espalharam rapidamente em todo o mundo. Nos mercados emergentes, o valor total dos ativos financeiros caiu US$ 5,2 trilhões em 2008, uma perda de 15%. Os fluxos de capital para países em desenvolvimento caíram 39%. O custo de captação de recursos tem subido nas muitas economias emergentes como os fluxos de empréstimos estrangeiros tem revertido, enquanto os fluxos de capitais de dívida e de capital próprio caíram drasticamente.

Por muitas razões, no entanto, o MGI acredita que a crise fará com que não mais do que uma pausa no desenvolvimento dos sistemas financeiros dos mercados emergentes. De fato, alguns indicadores sugerem que os mercados emergentes podem já estar se recuperando. Os mercados de ações da Ásia emergente, por exemplo, ganharam mais de 30% desde o final de 2008, enquanto os da América Latina subiram mais de 40%. Ambos representam um retorno muito mais forte do que nas economias desenvolvidas e que reflete o crescimento mais forte do PIB. E enquanto a emissão de dívida por parte dos governos de mercados emergentes e empresas diminuiu no segundo semestre de 2008, ele recuperou no primeiro semestre de 2009.

O desenvolvimento do mercado financeiro nos mercados emergentes não é garantido, no entanto. Uma incerteza é se as decisões políticas devem realizar as reformas dos mercados financeiros necessárias para permitir o desenvolvimento do mercado de capitais. A crise destacou os perigos do tipo de aprofundamento financeiro resultado de ativos e bolhas de crédito.

Todavia, o desenvolvimento do mercado financeiro pode ser benéfico se ele permite que o capital seja alocado de forma mais eficiente e permite maiores oportunidades para a diversificação do risco. Se as reformas certas permitirem este tipo de aprofundamento a ocorrer, as economias de mercado emergentes, que são projetados para dar conta de metade do PIB mundial em 2035, serão os principais beneficiários.

Portanto, para os mercados emergentes, o relatório diz que a crise de 2008 é provável que fosse mais do que uma temporária interrupção no seu desenvolvimento no mercado financeiro, uma vez que as fontes subjacentes de crescimento continuam fortes. Para os investidores e intermediários financeiros, emergir mercados tornar-se-á mais importante já que suas ações no mercado global de capital continua se expandindo.
 

O impacto do lançamento de IPO em bolsas internacionais: empresas brasileiras.

(Diego de Lima Rocha)

A partir de meados da década de 1990, com a aceleração do movimento de abertura da economia brasileira, o volume de investidores estrangeiros atuando no mercado de capitais brasileiro cresceu de maneira expressiva. Além disso, algumas empresas brasileiras começaram a acessar o mercado externo através da listagem de suas ações em bolsas de valores estrangeiras sob a forma de ADRs (American Depositary Reciepts), com o objetivo de se capitalizar através do lançamento de valores mobiliários no exterior.

Ao listar suas ações nas bolsas americanas, as companhias abertas brasileiras foram obrigadas a seguir diversas regras impostas pela SEC (Securities and Exchange Commission), órgão regulador do mercado de capitais norte-americano, relacionadas a aspectos contábeis, de transparência e divulgação de informações, os chamados "princípios de governança corporativa".

A abertura de capital, IPO (Initial Public Offering) em inglês, marca a venda das ações de uma empresa na Bolsa. Esse processo permite que os proprietários levantem capital para expandir a companhia e investir em novos negócios.

O principal destino das empresas brasileiras no exterior é a New York Stock Exchange (Bolsa de Valores de Nova Iorque), cuja abreviação oficial é NYSE, e é a maior e, juntamente com a Nasdaq e a American Exchange, uma das mais influentes bolsas de valores do mundo. Com um valor total de mercado de aproximadamente R$ 250 bilhões (dados 2009), é uma opção que as empresas têm à disposição para captar novos recursos. Isto significa muito mais recursos para investir e crescer, sendo conveniente não só para os estrangeiros, que podem investir nas empresas brasileiras, como também para os brasileiros, que veem seus investimentos se multiplicarem.

A empresa pioneira em lançamento de ações na NYSE foi a Aracruz (hoje Fibria, após incorporação pela Votorantim Celulose e Papel), há mais de 15 anos atrás. Em 2011, já eram 27 empresas brasileiras com ações listadas na NYSE, entre elas Sadia, Pão de Açúcar, AmBev (que teve valorização dos seus papéis de 13% em sete meses), Vale e Petrobras (valorização de 7% em oito meses), estando estas duas últimas entre as 35 empresas com mais liquidez da Bolsa de Nova Iorque.

Em número de empresas listadas na NYSE, o Brasil é o terceiro país estrangeiro perdendo apenas para a China e Canadá, com 152 e 68 companhias listadas respectivamente em 2011. Em volume de negócios, porém, a situação é ainda mais favorável para as companhias brasileiras. Elas movimentam cerca de US$ 2,7 bilhões por dia – quase o mesmo montante de dinheiro que circula em toda a Bovespa em um pregão -, perdendo apenas para as empresas americanas em valores movimentados no pregão nova-iorquino.

As exigências para que uma empresa estrangeira lance ações em Bolsas americanas são muitas. A principal delas é a necessidade de divulgar informações ao mercado de acordo com a lei contábil americana, a Sarbanes-Oxley. Esta exigência acaba por afastar companhias, já que os custos para a elaboração dos balanços costumam ser muito altos (podendo chegar a US$ 2 milhões por ano).

Com os balanços devidamente prontos é preciso conseguir a aprovação da SEC (Securities and Exchange Commission), órgão que regula o mercado de ações local. Além disso, a empresa terá que pagar US$ 150 mil à NYSE para fazer a listagem e depois arcará com uma taxa anual de, pelo menos, US$ 38 mil por ano. O tamanho das empresas brasileiras, porém, não é uma barreira para listagem na NYSE, sendo o valor mínimo necessário para realizar uma oferta de US$ 60 milhões.

Entre as principais vantagens de listar ações em mercados internacionais está a possibilidade de captação de recursos e diversificação de acionistas. A facilidade de captação de recursos nos EUA, por exemplo, se deve ao fato deste país ser o lugar mais barato do mundo para se negociar ações, uma vez que o negócio já é fechado em dólar e liquidado nos EUA, enquanto o Brasil é um dos mais caros.

Sendo assim, apenas investidores estrangeiros de grande porte possuem estrutura para investir em ações no Brasil. Quando listados em bolsas estrangeiras, os aplicadores de menor porte passam a ter acesso aos papéis, diversificando e facilitando a captação de recursos.

Outra diferença é o perfil investidor dos diversos países. Enquanto nos EUA, por exemplo, as ações representam 60% da poupança nacional, no Brasil esse número cai para 2% demonstrando o hábito do brasileiro de não arriscar suas economias em ações.

Por fim, uma empresa com ações listadas em bolsas estrangeiras ganha em visibilidade, liquidez e valor de mercado, pois se sabe que esta empresa se adaptou aos padrões de contabilidade internacionais e obtiveram aprovação do órgão que regulamenta seu mercado de ações.

A Bovespa é a principal afetada pela migração de empresas nacionais para o exterior. O primeiro problema são as taxas e comissões pagas por empresas brasileiras para manter ações nestas bolsas, deixando de pagá-las para a Bolsa de São Paulo.

Outro caso são empresas estrangeiras que compram empresas nacionais e fecham capital, mantendo seus papéis em bolsas mais fortes. Isso aconteceu com a Brastemp, que foi comprada pela americana Whirpool e teve seus papéis retirados da Bovespa e centralizados em Nova Iorque.

Assim, o mercado de ações brasileiro perde uma grande chance de expansão mantendo-se como opção secundária a Bolsas de Valores mais fortes pelo mundo.

Referências

BAPTISTA, Cristiana. Na capital do dinheiro. Disponível em: http://veja.abril.com.br/180401/p_110.html.
Acesso em: 28 de out. 2013.

VALLE, Sabrina. Bolsa de Nova York quer atrair mais empresas brasileiras. Disponível em: http://economia.estadao.com.br/noticias/neg%C3%B3cios,bolsa-de-nova-york-quer-atrair-mais-empresas-brasileiras,80244,0.htm.
Acesso em: 28 de out. 2013.

SILVA, João Carlos da. Ações de empresas brasileiras são negociadas na bolsa de Nova York. Disponível em: http://www.informaticaeinternet.com.br/corretora/acoes-de-empresas-brasileiras-sao-negociadas-na-bolsa-de-nova-york/.
Acesso em: 28 de out. 2013.

SANDRINI, João. As vantagens de listar ações em Nova York. Disponível em: http://exame.abril.com.br/mercados/noticias/vantagens-listar-acoes-nova-york-532242.
Acesso em: 30 de out. 2013.

LADEIRA, Fernando. Com ADRs, empresas brasileiras se capitalizam no exterior. Disponível em: https://www.wintrade.com.br/WinNews/news/com-adrs-empresas-brasileiras-se-capitalizam-no-exterior/308.
Acesso em: 30 de out. 2013.

 

Fontes Internacionais de Financiamentos para Empresas Brasileiras

(Paula Ricardo)


O crescimento dos negócios monetários e financeiros tende a tonar a economia cada vez mais internacionalizada e, para estabelecer o equilíbrio, o sistema financeiro internacional tem como função facilitar o comércio e os investimentos internacionais, bem como transferir capital para onde for mais lucrativo.

Buscando desenvolver sua função, o sistema financeiro internacional compreende algumas fontes de financiamento que são representadas pelos organismos de composição internacional, são eles: Fundo Monetário Internacional, Banco Internacional de Reconstrução e Desenvolvimento, Fundo Especial das Nações Unidas.

O Fundo Monetário Internacional (FMI), criado em 1945 com sede na cidade norte-americana de Washington, desenvolve sua atividade na estabilização do sistema monetário internacional financiando o déficit temporário do balanço de pagamentos. Desse modo, busca favorecer as relações comerciais internacionais garantindo estabilidade financeira.

Os empréstimos do FMI são concedidos aos países em dificuldades financeiras sob o estabelecimento de metas definidas pelo organismo. Tais metas consistem na implantação de ajuste orçamentário, cortes nos gastos públicos, monitoramento da taxa cambial, assim como o controle do consumo excessivo com a diminuição salarial.

O Banco Internacional de Reconstrução e Desenvolvimento (BIRD), mais conhecido como Banco Mundial (World Bank) é uma agência das Nações Unidas também com sede em Washington. O Banco Mundial é uma instituição de desenvolvimento que fornece financiamentos para governos ou projetos com garantia governamental. Sua atuação consiste na promoção do crescimento e desenvolvimento econômico nos países subdesenvolvidos.

Filiada ao Banco Mundial, a Corporação Financeira Internacional (IFC) foi criada com o objetivo de promover fluxos de capital privado para países em desenvolvimento. A IFC investe diretamente em empresas privadas ou oferece empréstimos ou garantia para investidores privados. De forma simplificada, a IFC toma empréstimos diretamente ao BIRD repassando-os para as entidades privadas sem garantias de seus governos.

Todavia, as empresas que desejam realizar investimentos devem considerar as fontes de financiamentos de recursos próprios e de terceiros. No caso de investimentos externos, as empresas brasileiras obtêm financiamento por meio de terceiros, tais como: bancos, instituições de crédito, programas de incentivo do governo e etc.

Nesse sentido, as empresas brasileiras compreendem como fontes de financiamento: a listagem e emissão em Bolsas; private equity; mercados futuros e derivativos; empréstimos bancários; mercado de títulos públicos; e financiamento às exportações.

As companhias de capital aberto são aquelas que negociam seus valores mobiliários de forma pública, geralmente em bolsa de valores. Essas empresas têm acesso às alternativas de financiamento proporcionadas pelo mercado de capitais, tais como: fundo de direito creditório - FIDC, debêntures, emissões de ações etc. Dessa forma, o financiamento por meio do capital próprio é importante fonte de recursos que, sendo rentável, haverá interesse dos investidores nacionais e internacionais em financiar a empresa.

Outra forma de financiamento que vem crescendo no Brasil são os investimentos realizados via fundo internacional de private equity. Tal financiamento refere-se ao investimento em participações acionárias de empresas de capital fechado, ou seja, é o tipo de investimento em empresas que ainda não estão listadas em bolsa de valores cujo objetivo consiste em acelerar o seu desenvolvimento, melhorar a gestão, além de elevar a rentabilidade.

Outra forma de financiamento dinâmico é o mercado de derivativos financeiros. Derivativos é o conjunto de instrumentos financeiros com origem em outros produtos financeiros. No mercado internacional encontram-se os derivativos opções, futuros, e os “swaps”, a saber:
as opções financeiras são contratos que dão ao seu comprador direito de comprar e vender um ativo-base em uma data futura a um preço pré-estabelecido. Vale destacar que não há obrigação em executar a transação, visto que as opções são instrumentos negociáveis em mercados de derivativos.

As opções compradas são usadas para reduzir os ricos do aumento de preços de um ativo quando este for adquirido em um momento futuro, além de ser utilizada também para especular com a perspectiva do aumento de preços. Já as opções vendidas são utilizadas para reduzir os riscos de queda de preços de ativos, bem como para especular com quedas de preço.

Já os futuros financeiros são contratos na qual as partes comprometem-se a transacionar um instrumento financeiro em uma data futura a preço pré-estabelecido. São instrumentos negociáveis que podem ser transacionados em mercados futuros.

Os futuros mais negociados em bolsas, geralmente são: futuro de taxa de juros, onde o vendedor entrega uma quantidade padronizada de um instrumento financeiro sujeito a juros e o valor do contrato se ajusta ao preço dos juros; futuro de índice de ações, o contrato fica entre uma parte e uma Bolsa, que deve ser liquidado financeiramente com base no índice de ações; futuros de moedas, no qual estabelecem a entrega de um valor fixo de moeda estrangeira e taxa cambial previamente fixada.

Na transação de swaps as duas partes trocam fluxos de pagamentos podendo ser de taxa de juros, de moedas estrangeiras, de commodities ou de ações. O objetivo dos swaps é aumentar o rendimento corrente (yield pick-up swap); diversificação ou concentração de portfólio (swap de substituição ou de setor); e obter os melhores preços no caso de juros (swap de taxa de juros). Os bancos centrais recorrem às swaps a fim de obter moeda estrangeira para intervir no mercado cambial mediante acordos recíprocos de credito de curto prazo.

Os investidores também podem recorrer ao financiamento através de empréstimos bancários. Nesse caso, os bancos assumem os riscos do empréstimo na obtenção do credito para a empresa. Existe também o financiamento via emissão de títulos, que são uma forma de captar recursos de investidores dispostos a emprestar. Nesse caso, os bancos preparam todo o processo de emissão colocando os títulos de dívida junto aos seus clientes.

O empréstimo adquirido via Bancos de Investimentos são voltados para pessoa jurídica.  Seu objetivo consiste em prover o mercado de recursos de médio e longo prazo, de modo a abastecer o capital de giro e investimento das empresas. Nesse sentido, o Banco de Investimento pode captar recursos internacionais, tomando empréstimo a uma taxa de mercado muito pequena no exterior e assim, financiar as empresas brasileiras com a taxa um pouco maior.

Outro ponto importante é financiamento de exportações. O Brasil está recebendo forte incentivo do Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico e Social (BNDES) no financiamento de exportações.  Isto é importante para o desenvolvimento econômico dos envolvidos, visto que as empresas têm a possibilidade de expandir novos mercados e melhorar seus lucros. Nesse contexto, o sistema financeiro deve ter uma participação efetiva para a promoção dos financiamentos às exportações das empresas.

Recentemente, um decreto presidencial elevou o limite permitido de participação estrangeira no capital total do Banco do Brasil, com a elevação da fatia que pode ser destinada aos investidores do exterior que foi de 20% para 30%. Dessa forma, o governo brasileiro tem interesse na maior participação estrangeira dos investidores na Bolsa. O objetivo é aumentar a liquidez das ações da instituição e com isso, assegurar maior ganho aos acionistas. Assim, quanto mais valorização, maior a presença (do BB) no Índice da Bolsa.

Referências

ROBERTS, Richard. Por dentro das finanças internacionais. Rio de janeiro. Zahar, 2000.
http://www.ocroma.com/mercado.html. , acesso em 15/10/2013.

http://www.bmfbovespa.com.br/pt-br/educacional/download/BMFBOVESPA-Como-e-por-que-tornar-se-uma-companhia-aberta.pdf, acesso em 15/10/2013.

http://www.bndes.gov.br/SiteBNDES/bndes/bndes_pt/Institucional/O_BNDES/A_Empresa/internacional.html, acesso em 19/10/2013.