Observamos atualmente um período marcado por intensa globalização financeira, no qual a economia mundial passa a contar com mercados financeiros maiores, mais capitalizados, mais diversificados, mais interdependentes, com circulação mais livre e ampliada e também mais rápida, em função das inovações na área da tecnologia de informação associada às telecomunicações.
A tendência contemporânea de globalização dos mercados financeiros parece aprofundar o movimento de internacionalização financeira registrado desde a segunda metade do século 19, aprofundando-se ao longo da segunda metade do século 20. Ambos os períodos foram marcados por movimentos de forte crescimento econômico e de forte desregulamentação institucional. A partir de 1990, essas tendências foram acentuadas por uma nova onda desregulamentação, ampliando as possibilidades de investimento e de financiamento, e ampliando a liquidez geral dos mercados. Todo esse processo barateou o custo geral capital, como demonstram os níveis permanentemente baixos das taxas de juros nas principais praças financeiras, trazendo efeitos positivos tanto para o financiamento do comércio exterior como para a onda de rápidas capitalizações, fusões e aquisições.
Essa longa marcha da internacionalização dos “portfólios” é retomada gradualmente após o final da segunda guerra mundial, depois de quase duas décadas de paralisia. O primeiro segmento do mercado financeiro a voltar a se abrir internacionalmente foi o chamado mercado de dinheiro (de depósitos), onde investidores de outros países começaram a buscar remunerações de juros compensadores em diferentes praças financeiras. Curiosamente, esta primeira liberalização de depósitos efetuados por estrangeiros foi estabelecida durante a Guerra Fria e por demanda justamente da União Soviética. Em 1958, as reservas internacionais acumuladas em dollar americano pela União Soviética e os demais países socialistas do leste europeu (em virtude da remuneração de suas exportações), necessitavam serem depositadas em algum banco do Ocidente, de preferência, compreensivelmente, fora dos EUA. Assim, os banqueiros da City de Londres permitiram a abertura de contas em dólares nas agências bancárias inglesas, para que os depósitos dos países socialistas fossem ali efetuados. Esse procedimento extraordinário logo se tornou comum e se disseminou pelas praças bancárias européias, se abrindo a outros investidores.
Esta primeira onda moderna de “internacionalização dos portfólios” foi caracterizada pela emissão dos chamados “eurodólares”. São eles os dólares americanos depositados diretamente em países europeus, em contas abertas e remuneradas em dólares, sem a necessidade da conversão cambial. A massa monetária em dólares gerada pelos bancos comerciais europeus era classificada como “eurodólar”. A taxa de juros oferecida aos depósitos bancários em dólar, devido ao fato de serem sempre depósitos a prazo (de pelo menos um dia “overnight”, mas, em geral, de três meses), teria que ser de tipo flutuante, vigente no dia do vencimento. Assim, em Londres (que até hoje representa cerca de um terço das transações com “eurodólares”) foi criada a LIBOR, taxa de juros interbancária da praça financeira de Londres.
A segunda fase da internacionalização dos mercados financeiros foi caracterizada pelo surgimento dos chamados “petrodólares”. Durante os anos 1970, esta liberalização de depósitos internacionais se popularizou ainda mais, estimulados pela massiva entrada de recursos gerados pelos excedentes petroleiros, provenientes dos países do Oriente Médio, os “petrodólares”, que procuravam remuneração, liquidez e segurança das casas bancárias européias. Já no final desta década de 1970, e diante da 2ª crise do petróleo de 1979, inicia-se um processo de liberalização das economias industrializadas, sobretudo a partir das administrações Reagan e Tatcher. Os mercados financeiros desses países passam por um processo de abertura, liberalização, privatização e desregulamentação. É também um momento de significativa elevação dos juros, como resultado das políticas monetárias restritivas. Com isso, os fluxos internacionais de capital serão bastante estimulados, especialmente os depósitos bancários internacionais efetuados em dollar, o principal meio de pagamento internacional. No ano de 1983, pela primeira vez, os investimentos em títulos (bônus e ações) ultrapassam os depósitos bancários.
A fase contemporânea de globalização de portfólios poderia perfeitamente ser classificada como a terceira onda desse processo de internacionalização dos mercados financeiros. Entretanto, esta fase apresenta características que poderiam constituir uma mudança qualitativa no processo, impulsionada,
(a) pelo forte crescimento americano nos 1990;
(b) pelas inovações tecnológicas no campo do processamento e da transmissão da informação;
(c) pelas inovações dos produtos financeiros oferecidos (derivativos, securitização, euromercados, mercados futuros);
(d) pelo aprofundamento da liberalização e desregulamentação dos mercados, especialmente nas Bolsas de Valores e nos mercados de divisas.
Assim, estes mercados financeiros se tornam cada vez mais competitivos, fazendo circular cada vez mais rapidamente, capitais mais livres e mais abundantes. Rápido processo de “internacionalização dos portfolios” a partir do começo dos anos 1990. A carteira de investimento dos fundos de pensão americanos passa a ser composta por 10% de títulos estrangeiros, 20% nos fundos britânicos e 9% dos fundos japoneses (partindo de praticamente zero nos 1980).
A evolução recente é marcada pela demanda americana por financiamento, o que contribui para a tendência de internacionalização financeira. A economia americana apresenta déficits comerciais crescentes desde 1992. É um período de crescimento constante, dólar desvalorizado, níveis elevados de consumo e de investimento, baixa taxa de poupança interna, fatores que resultam em demanda externa aquecida. Ao mesmo tempo, União Européia e Japão são excedentários, em função do baixo nível de consumo e de investimento. O déficit comercial americano acaba financiado pela entrada de capitais destinados aos mercados financeiros e aos investimentos em carteira, especialmente mercado de ações e bônus do tesouro americano.
Parcela considerável dos fluxos internacionais de capital se direciona, atualmente, aos mercados americanos, sobretudo para aplicação em títulos do governo e em ações. Esta dinâmica contribui para manter o dollar americano numa situação de permanente valorização, indicador flagrante dessa tendência. A entrada de investimentos financeiros nos EUA, durante os anos recordes de 1996 e 1997, superou o total investido nos dez anos anteriores (entre 1985 e 1994). A entrada anual de investimentos estrangeiros nas bolsas americanas representa um montante equivalente a cerca de 7% do PNB americano, Bolsas estas que acumulam recursos equivalentes a 105% do PNB americano. As estimativas para o ano de 1999 apontam para valores equivalentes a 130%. Grande parte destes investimentos é destinada aos “mutual funds” (os fundos mútuos são “condomínios de investidores”), que atualmente acumulam investimentos de cerca de 2 trilhões de USD, cerca de 20% dos capitais acionários dos EUA. Os mercados financeiros dos EUA desempenham atualmente o papel de intermediário global: atrai o capital privado internacional e depois o reinveste em mercados menos líquidos mas, mais remuneradores, ao redor do mundo. A situação generalizada de juros internacionais baixos (sobretudo na Europa e Japão), variando entre 2 e 4% ao ano, caracterizando-se assim um panorama de compressão global das taxas de juros, facilitou a tendência de fluxos massivos de capitais para os EUA e também, em menor escala, para os mercados emergentes.
A abertura de novos mercados também contribui para a ampliação do circuito de circulação internacional dos fluxos financeiros. Esses chamados mercados emergentes, oferecem novas alternativas de investimento e remuneração, integrando economias periféricas nos circuitos financeiros globais. Entretanto, é preciso lembrar que apenas um número bastante limitado de países, da América Latina e da Ásia, concentra a grande maioria destes investimentos. E mesmo assim, apenas cerca de 1% dos capitais privados globais se destinam a estes mercados emergentes (que dobraram entre 1992 e 1996 e triplicaram entre 1992 e 97). As transações totais anuais em títulos de emergentes chegaram a movimentar 5 trilhões USD em 1996 e o total da capitalização nestes mercados chegou a 400 bilhões de USD em 1997, auge dos investimentos financeiros nos mercados emergentes.
Além disso, também se verifica o processo de “financeirização das empresas”, onde se multiplica a oferta de financiamento para projetos corporativos e, ao mesmo tempo, a poupança em poder das grandes empresas busca formas constantes de valorização. Essa grande quantidade de capitais corporativos a procura de valorização passa a participar mais diretamente dos mercados financeiros, fazendo com que uma considerável fatia da poupança corporativa seja aplicada financeiramente. Empresas transnacionais passam a atuar como agentes financiadores, com atuação direta ou indireta no mercado financeiro. Nesses casos, a gestão de tesouraria (especialmente a gestão de "portfólios") passa a ser tão importante como a gestão da atividade-fim da empresa. Ao mesmo tempo, no sentido inverso, recursos financeiros, especialmente aqueles oriundos de investidores institucionais, como fundos de pensão e fundos de investimento, passam a ser aplicados em empresas como alternativa de remuneração, como estratégia de diversificação de "portfólios".
Este panorama de globalização financeira se expressa numa situação atual de grande expansão dos fluxos de capitais. O fluxo total de empréstimos mais investimento financeiro: 400 bilhões USD em 1987 para 1.600 bilhões USD em 1996, com crescimento anual variando entre 15 e 20%. Todos os indicadores foram multiplicados por 10 entre a metade dos 1980 e a metade dos 1990 (enquanto o PIB se multiplicou por 2 e o comércio se multiplicou por 3).
Alguns indicadores demonstram essa forte expansão. O mercado de câmbio, a circulação diária passa de 720 bilhões usd em 1989 para 1.570 bilhões USD em 1995. No segmento de derivativos, as aplicações anuais de “swaps” (juro e moeda) passaram de 560 bilhões USD em 1987 para 7.000 bilhões USD em 1994. Os sistemas financeiros nacionais estão muito mais integrados, pois as transações internacionais crescem mais rapidamente que as transações financeiras domésticas (9% contra 12%, ao longo dos 1990). Às vésperas da crise de 1997, a relação entre fluxos internacionais de capitais e de mercadorias atinge a proporção de 40 para 1, com investimentos anuais de cerca de 250 trilhões de USD. A poupança referente a seguros e fundos de pensão atingiu, em 1994, a cifra de 20 trilhões de USD, apenas nos países da OCDE. Atualmente, os depósitos bancários internacionais (mercado de crédito) movimentam anualmente cerca de 50 trilhões/USD.