quinta-feira, 24 de março de 2016

No plano europeu, mais uma vez esforços para salvar os bancos

(Alexandre Espírito Santo)

maio de 2010

Venho comentando em algumas palestras que a globalização tem origem ainda na época das grandes navegações, quando Portugal e Espanha "partilhavam" o mundo entre si. Sendo assim, o continente europeu é o precursor desse processo que, a partir de meados da década de 1980, foi impulsionado pelas revoluções tecnológica, da informática e das telecomunicações.

Essas mudanças deram força à globalização financeira, esta sim a responsável por muitas mazelas, como a crise de 2008 e a atual, na zona do euro. Será que a Europa poderá viver um efeito bumerangue capaz de fragilizá-la? Sem dúvidas! Prova disso foi o "pacotaço" de socorro, alinhavado no último fim de semana.

A economia do velho continente representa um quarto do PIB mundial. Não é desprezível. Ao contrário. Com os americanos ainda se soerguendo, uma recuperação europeia seria fator sine qua non para que a economia global voltasse a crescer de forma sustentada. Mas a questão dos PIIGS (Portugal, Irlanda, Itália, Grécia e Espanha) revela que a economia do bloco está cambaleante, não somente pelo risco de "default", mas, sobretudo, pelo possível contágio sobre os sistemas financeiros de Alemanha e França, grandes detentores das dívidas desses países.

Alguns alunos vinham pontuando que a Grécia sozinha não tinha todo esse poder de destruição, a despeito de ter uma dívida de quase 115% do PIB. "Mas a Espanha, por exemplo, tem", eu dizia a eles: a 12ª economia do globo possui endividamento de mais de 50% do PIB, seu déficit público é de 11% e a taxa de desemprego é de 20%. Se o país "quebrar" poderá provocar um efeito dominó, que tornaria muito provável o cenário de crise em formato de "W" e não de "V", como os mais otimistas ensejam. Uma derrocada europeia teria o poder de retardar a recuperação do sistema bancário americano, exposto a títulos daqueles países. Ademais, o quadro que se avizinha por lá é de deflação, recessão e desemprego elevado; nada alvissareiro.

O leitor atento não deve ter se surpreendido com a ajuda colossal de quase US$ 1 trilhão anunciada no domingo. Se o FMI, e outros mais afortunados, aprovaram um pacote gigante para tirar a Grécia da UTI, nada mais natural que avalizassem ajuda profilática aos demais moribundos. Todavia, algumas questões cabem aqui: esses resgates não podem comprometer a parte "saudável" da economia da região? Afinal, agora, os principais tesouros do mundo ficarão muito endividados e seus riscos tendem a aumentar de forma significativa. Outro ponto relevante: pelo receituário keynesiano adotado pós-2008, as políticas fiscais precisariam ser expansionistas (e foram). Agora os países em crise prometem arrocho fiscal. Não é paradoxal?

Economistas renomados, como Joseph Stiglitz, defendem a tese de que o euro entrou num processo irreversível de fracasso. Um bloco econômico possuir uma moeda única traz vantagens comerciais, colabora com a interdependência entre nações, mas os graus de liberdade das políticas macroeconômicas também se reduzem, uma vez que os países abdicam de suas políticas monetárias e cambiais. A possível derrocada do euro não será a pá de cal sobre a região?

Infelizmente as perguntas desagradáveis prosseguem: a crise de 2008 afetou o sistema bancário, que foi (e continua sendo) resgatado pelos tesouros. Agora a crise atinge os próprios tesouros, que buscam salvação uns nos outros. No limite, quem os salvará? E o papel dos bancos centrais? Depois dos juros (quase) a zero, ficarão comprando títulos podres ad aeternum impunemente?

Em várias oportunidades, aqui neste espaço, expus meu temor de que os mercados financeiros estavam otimistas demais nos últimos meses. A despeito de acreditar que a ajuda disponibilizada poderá trazer algum efeito temporário sobre os mercados, continuo sugerindo cautela aos investidores. Acredito que diversificar em ouro é boa aposta e permaneço convicto de que nossa moeda está valorizada em excesso frente ao dólar, especialmente diante de um quadro de deterioração de contas externas, como o atual.

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