(Arlisia Kelly Ribeiro Santos)
Os formuladores de políticas ao redor do mundo usaram estímulos fiscais para atenuar as perturbações econômicas e sociais advindas da crise financeira de 2007. Houve certo consenso de que o setor bancário necessitaria ser salvo para evitar uma crise sistêmica e restaurar a confiança da economia. Medidas fiscais de curto prazo foram tomadas para estimular a economia e referendadas por diversos economistas, incluindo organizações governamentais e governos.
A crise, porém,
potencializou os problemas de economias já endividadas e com problemas de
solvência, agravando ainda mais sua posição fiscal e dando início a um temor
irrepreensível de contágio. Casos evidentes são os da Grécia, Irlanda,
Portugal, Itália e Espanha que impuseram um impasse recente à Zona do Euro.
Os problemas
relacionados às dívidas, logo após as crises bancárias, tiveram destaque
especial no recente estudo de Reinhart e Rogoff (2010). Os autores chegaram ao
resultado de que, em média, a dívida pública aumenta em cerca de 86% nos três
anos seguintes à uma crise financeira. Isso não só por conta das operações de
socorro aos bancos, mas também por conta do emprego da política fiscal a fim de
manter o nível de emprego e renda em suas economias.
“Na verdade, não estamos vivendo uma nova
crise mundial. A crise é a mesma que teve início em 2008, estamos só em uma
nova fase”, afirma Antonio Zoratto Sanvicente, professor do Insper (Instituto
de Ensino e Pesquisa).
Breve análise do histórico da crise de 2007
Mishkin (2010)
divide a crise financeira de 2007-2009 em duas fases. A primeira é mais
limitada e afeta um segmento relativamente pequeno do Sistema Financeiro dos
Estados Unidos, que vai de agosto de 2007 a agosto de 2008. Nesta fase, o PIB
dos EUA continuou a subir até o segundo trimestre de 2008, o que levava a crer
que a recessão teria apenas um impacto moderado sobre a economia do país. Em
meados de setembro de 2008, a crise entrou em uma fase muito mais violenta,
iniciando-se com a quebra do banco de investimentos Lehman Brothers; no mesmo
mês, a empresa de seguros AIG também faliu, dando-se então uma corrida para
salvar o sistema financeiro através do Programa de Alívio de Ativos
Problemáticos (Troubled Asset Relief Plan).
O autor mostra
que uma crise financeira se transforma em uma crise global por conta de três
motivos. Primeiro, a crise aumenta os spreads de crédito correspondente à
diferença entre a taxa de juros dos títulos públicos e os títulos “Baa
corporate”, debilitando a política monetária, pois as taxas de juros que
deveriam ser cortadas para estimular a economia, através da demanda agregada,
ficam impedidas de sofrer quedas, uma vez que os bancos elevam os spreads.
Segundo, o declínio dos preços dos ativos durante uma crise financeira provoca
uma queda no valor dos colaterais, o que torna mais difícil para as empresas
não-financeiras tomar emprestado. Além disso, a deterioração dos balanços das
empresas financeiras, que têm o conhecimento necessário para mitigar problemas
de seleção e risco moral, provoca uma redução no volume de empréstimos
ofertados. Terceiro, o aumento geral da incerteza que ocorre durante uma crise
financeira também leva a um aumento da assimetria de informação dificultando
ainda mais a capacidade dos mercados financeiros em alocar fundos para as
famílias e empresas (Mishkin, 2010).
Uma das
principais respostas à crise foram os estímulos fiscais dados por alguns
países. A administração Obama, através do American Recovery and Reinvestment
Act de 2009, injetou bilhões de dólares na economia. Além disso, o plano
apresentado previa 288 bilhões de dólares em cortes de impostos e US$ 499
bilhões com gastos do governo (Mishkin, 2010). Em outros países também afetados
pela grande recessão que se iniciava, passaram a adotar estímulos fiscais.
Segundo Auerbach et all (2010), a prevalência de intervenções de políticas
fiscais no período se deveu tanto a severidade da recessão quanto a um otimismo
revelado no que diz respeito ao potencial da eficácia da política fiscal. No
entanto, o autor afirma que a variedade de políticas adotadas também sugere
incerteza sobre quais abordagens poderiam ser mais eficazes.
Em uma
perspectiva pós-keynesiana, Arestis e Sawyer (2010) defendem que a política
fiscal é um instrumento mais eficaz do que a política monetária e que os
argumentos de que a primeira é impotente não são válidos. Para eles,
recentemente houve uma mudança de atitude em relação à política fiscal, uma vez
que, nas últimas décadas, a sabedoria convencional tem se pautado pelas
seguintes proposições:
A política
monetária é o principal instrumento para a gestão macroeconômica, geralmente
orientada a controlar a inflação e a política fiscal tem um papel de apoio ou
coadjuvante para amortecer oscilações na atividade econômica, o que se reflete no
“novo consenso da macroeconomia”.
A noção de
equivalência limita o uso da política fiscal, pois o déficit
orçamentário é impotente para afetar o nível de atividade econômica uma vez que
seus efeitos sobre a demanda agregada decorrentes de aumentos na despesa
pública seriam anulados por reduções no presente na demanda privada, dado o
aumento da dívida pública no futuro.
Por fim,
ganhou força o argumento da prodigalidade em que o uso da política fiscal
acabaria por produzir déficit orçamentário que levaria a uma dívida pública
insustentável; por isso, variantes de regras de equilíbrio orçamentário foram
defendidas. Um exemplo claro disso é o Pacto de Estabilidade e Crescimento da
União Européia no qual o déficit público máximo permitido seria de 3% sobre o
PIB e uma dívida pública de 60% também como proporção do produto.
No entanto,
depois dessas considerações, é ainda duvidoso que tenha ocorrido uma mudança de
paradigma sobre a política fiscal, pois é esperado que esta atitude tenha sido
apenas temporária, dada a ineficácia da política monetária nesta situação.
A
indisciplina fiscal e o descontrole das contas públicas em países da zona do euro,
em particular na Grécia, arrastaram o bloco para uma crise financeira sem
precedentes. Após a revelação de que os gregos maquiavam seu nível de
endividamento, títulos soberanos de diversos países da zona do euro foram
rebaixados pelas agências de risco, e a moeda comum caiu ao nível mais baixo em
quatro anos. Para tirar a Grécia do buraco, União Europeia e FMI impõe um duro
e impopular plano de austeridade, a que condicionam o socorro financeiro.
Dívida pregressa e adquirida: elementos
para uma nova crise
A figura 1 mostra os picos de endividamentos estudados por Reinhart e Rogoff (2010) e as soluções encontradas. Nos últimos anos, a dívida pública nas economias avançadas subiu para níveis que não foram registrados desde o fim da Segunda Guerra Mundial. Até 2010, a relação dívida/PIB para todas as economias avançadas já havia ultrapassado os picos alcançados durante a Primeira Guerra Mundial e, posteriormente, durante a Grande Depressão. Níveis de dívida privada, particularmente de instituições financeiras e famílias, estavam similarmente em territórios desconhecidos. Ao longo dos tempos e em todos os continentes, a guerra tem sido uma força causal recorrente por trás da rápida deterioração das finanças públicas e picos de endividamento público. Em tempos de paz, um dos principais fatores por trás dos surtos de dívida pública são as crises financeiras sistêmicas. Com a crescente tendência do governo se estender em operações de socorro, a ligação entre dívida financeira e pública tornou-se mais pronunciada nas últimas duas décadas ou mais (Reinhart e Sbrancia, 2011; Reinhart e Rogoff, 2010).
Atualmente, é nítida a preocupação de que a crise na economia mundial se intensifique pelo temor engendrado na Zona do Euro, tendo a Grécia como principal expoente. O país acumulou uma dívida de cerca de 300 bilhões de euros e um déficit fiscal em 2009 de 13%, bem acima do teto fixado pelo Tratado de Maastricht que estipula 3% do PIB, Eichengreen et al (2011) relatam que não faz parte da tradição européia manter baixas taxas de dívida pública, com exceção de apenas alguns países que foram capazes de superar suas dívidas como resultado de seus respectivos processos de catching-up. Os países da Zona do Euro, em média, foram capazes de gerir sua dívida pública como proporção do PIB estabilizada somente nos primeiros dez anos da moeda única. Na época pré-crise, 17 membros da Zona do Euro já possuíam uma dívida pública em relação ao PIB superior a 60% em 2006. Três países, Grécia, Itália e Bélgica, possuíam uma relação dívida/PIB de 90%. Estas dívidas não foram oriundas de guerras ou catástrofes naturais, mas uma maneira de oferecer cada vez mais serviços públicos e realizar transferências.
Conforme a
taxonomia minskyana, pode-se afirmar que a Grécia, como alguns outros países
europeus, estão em situação Ponzi – em que os recursos provenientes de seus
ativos não são suficientes para cumprir suas obrigações financeiras e, em razão
disso, requer-se um endividamento crescente. Essa situação se agrava em
períodos de crise em que os empréstimos interbancários são limitados e o
financiamento, de modo geral, se esgota.
As perspectivas futuras da economia mundial
parecem sombrias se acompanharmos os recentes desdobramentos da atual Crise
Européia. Aumentos nos déficits de países já endividados e a incerteza relativa
à recuperação econômica têm provocado novas rodadas de crise econômica e
política.
Concluímos, a partir do estudo e dados observados,
que todo o circuito dívida bancária - política fiscal - dívida soberana é algo
que só pode ser evitado antes. Autores renomados têm dúvidas sobre o futuro da economia
e modelos convencionais, com os quais nos acostumamos a lidar em períodos de
aparente estabilidade econômica, não dão conta de prever o futuro da economia.
A adoção, vista por muitos como equivocada, de políticas fiscais desordenadas e
que só agravaram problemas de dívida soberana tornam as perspectivas futuras
não animadoras, uma vez que poderemos vivenciar um período de baixo crescimento
econômico mundial.
Referências
BANCO CENTRAL
EUROPEU. Monthly Bulletin. Frankfurt: Banco
Central Europeu, agosto de 2005. Disponível em: http://www.ecb.int/pub/pdf/mobu/mb200508en.pdf
Acesso em: 23/10/2011.
BANCO CENTRAL EUROPEU. Reinforcing Economic Governance in the Euro Area. Frankuft: Banco Central Europeu, junho de 2010. Disponível em:http://www.ecb.int/pub/pdf/other/reinforcingeconomicgovernanceintheeuroareaen.pdf
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PFETSCH, Frank R. A
União Européia: história, instituições, processos. Brasília:
Editora Universidade de Brasília, 2002.
SCHUKNECHT, Ludger et al. The Stability and Growth Pact:
Crisis and Reform. Frankfurt:
Banco Central Europeu, 2011 (Occasional Papers Series No. 129). Disponível em: http://www.ecb.int/pub/pdf/scpops/ecbocp129.pdf
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VERDUN, Amy. Economic and Monetary Union. . In:
CINI, Michelle (org.). European Union Politics.
Oxford: Oxford University Press, 2007.
BRAINARD, William C. (1967),
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ALESINA, A. F.; ARDAGNA, S. (2009),
“Large changes in fiscal policy: taxes versus spending”, NBER Working Paper Series,
n. 15438.
EICHENGREEN, B. (2010),
“Macroeconomic and financial policies before
and after the crisis”, In: East-West
Center/KDI Conference on the Global Economic Crisis, Honolulu. 
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